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Suspiro

 

por Roberta D’Albuquerque

No caminho de volta da minha análise, agora há pouco, cruzei um café e concluí que faria sentido entrar e comer um sonho. Achei graça. São os sonhos a me engolir parte do que levo para a minha análise. Foram eles, os doces favoritos de minha infância nem sempre doce.

Eram duas as opções na vitrine: assado ou frito. Tendo como ponto de referência a conversa que ainda ressoava na minha mente, fui no frito. Para rapidamente me deixar ser invadida pelo pensamento que costuma me convencer quando opto pelo lanche menos saudável disponível: se é para molhar os pés, por que não mergulhar de uma vez?

E no mais, é saudável andar de pés molhados nesse São Paulo de vento gelado? Não saberia dizer. Mergulhei. Já que o sonho era grande e a quantidade de açúcar exagerada, balanceei com uma coxinha. Frita. E perdi a hora do meu próximo compromisso, porque um café de fim de tarde há de ser vivido sem pressa. Ainda que em São Paulo. São Paulo que sabe ser quentinha, mesmo se venta e é inverno.

Eram duas as opções de mergulho na minha infância: pensar ou ressoar. Tendo como ponto de referência o disponível. Sonhei. Para rapidamente não me deixar acostumar a me convencer pelo mental. Se é para fritar que me invadam as conversas, os lanches, os pés molhados. Por que não adoçar de uma vez?

No caminho de volta do meu café, agora há pouco, analisei a graça. Achei que fazia sentido. São os suspiros os doces favoritos de minha vida que por não ser sempre doce não é parte, é todo. Não se deixa engolir.

Roberta D’Albuquerque é psicanalista e escreve sobre maternidade e infância para diversas publicações brasileiras.

 

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