Literatura em meio a guerras - Brasil News
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Literatura em meio a guerras

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Livro: Adeus às armas

Autor: Ernest Hemingway

Nascido do centro oeste norte-americano, no ano de 1899, Ernest Hemingway ingressou no jornalismo aos 18 anos. Na ocasião, tornou-se repórter do The Kansas City Star. A relação do escritor com jornalismo marcou o estilo do ganhador do prêmio Nobel de 1954. Hemingway levou para a sua literatura as máximas das redações, que defendem a concisão e a objetividade. Tais características de estilo foram ainda mais apuradas na experiência posterior do autor como correspondente do jornal The Toronto Star. No ensejo, para baratear a transmissão das notícias ao escritório (o custo era mensurado pela quantidade de palavras), a objetividade foi a principal arma do repórter.

Curiosamente, a relação do escritor com o jornalismo não era apenas de amor. Em entrevista à revista The Paris Review, citada por Jonas Lopes no artigo Hemingway e a invenção do autor em ação, o literato norte-americano teria dito: “o trabalho jornalístico não prejudica o jovem escritor e pode vir a ajudá-lo se ele cair fora a tempo. O jornalismo, depois de um certo ponto, pode vir a se tornar uma autodestruição diária para um escritor sério e criativo”.

Além do jornalismo, outro elemento que influenciou Ernest grandemente foi a guerra. A Primeira Grande Guerra, a princípio. E a Guerra Civil Espanhola, depois. A guerra está presente como pano de fundo (e, as vezes, talvez em mais do que isso) em vários de seus livros. Em O sol também se levanta (1926), o cenário é de um pós-guerra habitado por ex-combatentes deslocados em tempos de paz. Em Big two-hearted river (1925), o personagem Nick Adams é atormentado por lembranças do prélio. Já em Por quem os sinos dobram, obra que alcançou enorme popularidade, o que pode ser atestado pela vendagem no ano do lançamento, o enquadramento é a Guerra Civil Espanhola e a luta contra o fascismo. Hemingway esteve neste conflito, a princípio como jornalista, ligado a uma agência de notícias, logo depois como engajado militante antifascista.

A guerra faz-se presente da mesma forma em Adeus às armas, publicado em 1929. O enredo revela a história – quase biográfica – do americano Frederic. Assim como o autor, o protagonista testemunha os fronts da Primeira Guerra, em solo italiano, como motorista de ambulância (Hemingway ocupou este ofício nas fileiras da Cruz Vermelha). No livro, após ferir-se, o personagem conhece a enfermeira inglesa Catherine. Na vida real, a enfermeira que tratou dos ferimentos de Hemingway atendia pelo nome de Agnes.

Se na vida real, a enfermeira Agnes não corresponde à paixão do motorista de ambulância, na ficção, Catherine engravida e experimenta um curto, porém intenso período de cumplicidade com Frederic, o qual dura até a trágica morte da enfermeira, durante o parto. É como se, de certa forma, Frederic, que havia desertado, não tivesse como fugir do horror, em meio aos descalabros da guerra. O contexto coletivo negativo desceria ao indivíduo, ainda que este estivesse afastado do conflito.

Hemingway também testemunhou in loco a Segunda Guerra Mundial, desta feita como jornalista. Em 1952, publicou outro de seus maiores sucessos, a parábola O velho e o mar, cujo atestado de qualidade foi referendado com a conquista do prêmio Pulitzer de 1953. Após uma vida agitada, permeada por aventuras – tão ou mais exuberantes do que aquelas vividas por seus personagens, o escritor se suicidou em 2 de julho de 1961.

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