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Graciliano para crianças

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Conhecido pelo estilo sóbrio e conciso, presente em obras como São Bernardo e Vidas secas, Graciliano Ramos (1892 – 1953) surpreende em A terra dos meninos pelados, clássico da literatura infanto-juvenil brasileira, publicado originalmente em 1939, pela lendária editora da livraria Globo, de Porto Alegre.

A surpresa, no entanto, não reside na objetividade de suas frases, que segue o inconfundível estilo lacônico do escritor alagoano, nascido no pequeno município de Quebrangulo. Ainda no final da década de 1930, a obra A terra dos meninos pelados foi agraciada com o prêmio Literatura Infantil, concedido pelo Ministério da Educação e Saúde.

O aspecto inusitado do conto está na revelação da hábil capacidade imaginativa e fantasiosa de um escritor que se tornou famoso por descrever, em seus romances, estórias melancolicamente palpáveis, sob cenários reais e atuais. É o caso da saga do ganancioso personagem Paulo Honório e de seu latifúndio, que aparece como cenário em São Bernardo; ou ainda do miserável Fabiano, no tórrido cenário sertanejo de Vidas secas.

Em A terra dos meninos pelados não há latifúndio ou caatinga. O “pano de fundo” da obra é o maravilhoso país de Tatipirun, onde as ladeiras se aplanam na medida em que o pedestre avança sobre elas e o rio se fecha quando um transeunte deseja transpô-lo. Em Tatipirun os automóveis possuem olhos bicolores no lugar dos faróis e as cobras corais não mordem, servindo antes de enfeites para os braços da princesa Caralâmpia, uma das personagens mais marcantes da literatura nacional.

Ramos antecipa elementos politicamente corretos ao cultivar, como intenção central da estória, o respeito à diversidade entre as crianças. Também aborda a questão do bullying, décadas antes do termo entrar para o repertório dos brasileiros. O personagem principal do livro, o menino Raimundo, precisa lhe dar com o fato de ser diferente.

As linhas iniciais do livro dão conta do cenário: “Havia um menino diferente dos outros meninos: tinha o olho direito preto, o esquerdo azul e a cabeça pelada. Os vizinhos mangavam dele e gritavam: – Ó pelado!”. Embora a criança fosse “de bom gênio” e não se zangasse, ao fim e ao cabo, “(…) entristecia e fechava o olho direito. Quando o aperreavam demais, aborrecia-se, fechava o olho esquerdo. E a cara ficava toda escura”.

A ausência de cabelos é uma característica marcante do protagonista. Não por acaso, a obra é lembrada em contextos de tratamentos de crianças com câncer. Em novembro de 2012, por exemplo, Instituto do Câncer Infantil do Agreste (ICIA), em Caruaru, no interior de Pernambuco, inaugurou o seu setor de quimioterapia batizando-o de “A terra dos meninos pelados”.

Livro: A terra dos meninos pelados Autor: Graciliano Ramos

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