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Esperar

 

     Escrevo este texto da sala de espera da pediatra de minha filha mais velha.
Cheguei às 11h25 para a consulta que estava marcada às 11h30. São
12h20. Desde que sentei na cadeira branca, posicionada com distância
estratégica de outras mães, com quem divido o ambiente, penso na força
simbólica que as antessalas dos consultórios médicos representam.

     Durante minha infância eram a parte mais interessante do trabalho de minha
mãe, que atendia em uma casa avarandada, com jardim de inverno,
brinquedos e revistas organizados uns por faixa etária e outros por data de
publicação. Lá estava a proibida e, por isso mesmo, irresistível mesa
ocupada pela secretaria – um tanto brava um tanto engraçada – dona do
controle absoluto do material de escritório. Carimbos, cadernos,
grampeadores, clips e canetas coloridas liberadas por Dr. Ana para nossa
brincadeira quando o expediente de Carminha chegava ao fim.

     Aos poucos, percebi que aquele ambiente podia significar outras coisas para
além do divertimento. Quem responde pelo chamado de ‘próximo’ não vê
tantas atrações entre reportagens, carrinhos, bonecas, papeladas e o
caminhar dos ponteiros do relógio. Quem torce por uma solução, um bom
resultado de exame, um “Fique tranquila, está tudo certo.”, não tem tempo a
perder ainda que invariavelmente sinta o tempo passar arrastado enquanto
não atravessa a porta ao encontro do médico.

     Hoje, entre a mãe a meu lado, a sentada à minha frente e eu sobrevoa uma
certa cumplicidade. Aguardamos juntas há quase uma hora. A mulher que já
leu/folheou 3 revistas, eu que já nem finjo ler nada, a terceira que não se furta
de perguntar repetidas vezes à secretária se falta muito não fazemos parte
da cena que se dá entre hebiatras e pacientes. Inauguramos as 3 um outro
jeito de ocupar este espaço. Nossas meninas estão sendo atendidas agora,
foram chamadas por suas médicas pontualmente. E a nós resta esperar.

     Ser mãe de adolescentes é viver um pouco na antessala. Estar lá se for
preciso, convencer-se de que provavelmente não será. Um expediente que
está só começando e tem tudo para ser divertido. Que fiquemos tranquilas,
vai dar tudo certo.

 

Roberta D’Albuquerque é psicanalista e escreve semanalmente para o Brasil News e para diversos jornais do Brasil sobre infância e comportamento. Ela é autora de Quem manda aqui sou eu – Verdades inconfessáveis sobre a maternidade e criadora do portal A Verdade é Que…

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