Dica de livro: A vida de esperas de um veterano - Brasil News

Brasil News

Leitura

Dica de livro: A vida de esperas de um veterano

A situação do coronel e de sua esposa não era a das melhores. Viviam na pobreza, a depender cronicamente do crédito. A casa estava hipotecada. Na luta pela sobrevivência, venderam, ou tentaram vender, utensílios e adornos da casa. Nisso, restou apenas um relógio e um quadro.

A situação do coronel e de sua esposa não era a das melhores. Viviam na pobreza, a depender cronicamente do crédito. A casa estava hipotecada. Na luta pela sobrevivência, venderam, ou tentaram vender, utensílios e adornos da casa. Nisso, restou apenas um relógio e um quadro.

Para piorar, o coronel sofria de um constante mal-estar nas vísceras, indisposição a qual atribuía ao mês de outubro. A bem da verdade, pouco sabia a respeito, já que se negava a consultar o médico. Tratava com o doutor apenas para o atendimento à esposa, a qual era asmática. Os silvos pulmonares à noite denunciam a gravidade do problema de saúde da mulher.

Possuíam um filho morto, Agustín, o qual fora um mestre alfaiate e fanático por combates de galo. Apesar da ausência inerente aos mortos, estava constantemente presente, não apenas nos comentários dos pais, os quais sentiam a sua falta, como, também, na herança deixada aos genitores, um galo de combate. O galo, aliás, era um dos assuntos em voga na vila. Dizia-se ser promissor nas rinhas. O coronel se mostrava animado com as perspectivas do galo de combate. A mulher, no entanto, não ratificava a confiança. Ela descreveu o animal penoso como um fenômeno (no sentido de aberração): “tem a cabeça muito pequenina para as patas”.

Embora faltassem, ao coronel e à esposa, meios para garantir o próprio sustento, o casal desafortunado encontrava formas de manter o galo vivo, na expectativa de obter renda com a ave, por meio de apostas em pelejas que estavam por vir. Apesar de parco, o milho acarretava despesas quase insuportáveis.

Contudo, a maior esperança do coronel residia em uma pensão prometida pelo governo aos veteranos da guerra civil. Promissão que já se arrastava por 15 anos. Nesse ínterim, todos os companheiros veteranos já haviam morrido. A demora, todavia, não arrefeceu a ansiedade do coronel, o qual acorria, toda sexta-feira, ao posto dos correios, na confia de receber notícias a respeito de seu direito.

As correspondências chegavam à vila por uma lancha. O administrador apanhava o saco e o levava para o posto dos correios. O coronel o seguia nesse périplo. Invariavelmente, na repartição postal, encontrava com o médico, o qual aguardava sua correspondência com o pacote de jornais e boletins de propaganda médica. Nessas ocasiões, sempre conversavam. Comentavam por alto as manchetes dos jornais e versavam sobre a saúde da mulher asmática.

A espera do veterano, no entanto, constantemente redundava na frustração e no constrangimento de nunca receber carta alguma. Certa vez, ao reparar que, ao coronel, o administrador dos correios não destinou correspondência alguma, o médico indagou: “Nada para o coronel?”. Ao que o administrador, quase a dar de ombros, respondeu: “Ninguém escreve ao coronel”. Estava batizado um dos principais livros do escritor colombiano Gabriel García Márquez (1927 – 2014), um dos expoentes da literatura universal e prêmio Nobel em 1982.

Publicada originalmente em 1961, a obra apresenta uma história cujo cenário é marcado por um estado de sítio, perseguição política e censura. Uma referência à instabilidade política e às ditaduras que varreram a América Latina durante a Guerra Fria (o Brasil também teve a sua, de 1964 a 1985).

Em decorrência das conversas no posto dos correios, era comum o médico emprestar o jornal ao coronel, o qual podia constatar a profusão de notícias do estrangeiro, sobretudo da Europa, já que as notícias locais padeciam da desconfiança e censura do governo instalado. A este respeito, e demonstrando tirocínio, apesar da ameaça constante da inanição, o coronel comentou certa vez, ao doutor: “Desde que há censura, os jornais não falam senão da Europa”. E completou “O melhor será que os europeus venham para cá e que nós vamos para Europa. Assim toda a gente ficará a saber o que se passa no seu respectivo país”.

Livro: Ninguém escreve ao coronel
Autor: Gabriel García Márquez
Resenha: Tiago Eloy Zaidan

Dica de livro: A vida de esperas de um veterano
To Top
$(".comment-click-2153").on("click", function(){ $(".com-click-id-2153").show(); $(".disqus-thread-2153").show(); $(".com-but-2153").hide(); }); $(window).load(function() { // The slider being synced must be initialized first $('.post-gallery-bot').flexslider({ animation: "slide", controlNav: false, animationLoop: true, slideshow: false, itemWidth: 80, itemMargin: 10, asNavFor: '.post-gallery-top' }); $('.post-gallery-top').flexslider({ animation: "fade", controlNav: false, animationLoop: true, slideshow: false, prevText: "<", nextText: ">", sync: ".post-gallery-bot" }); }); });