Dica de Livro: Quando a morte entrou em greve - Brasil News
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Dica de Livro: Quando a morte entrou em greve

I

magine um país onde, repentinamente, ninguém morre mais. Ninguém mesmo. Então, logo, todos se desatam a comemorar e a louvar a tão abençoada pátria. Todavia, as consequências da falta que a morte traz começam a acarretar problemas insolúveis. Este cenário, completamente insólito, está presente no livro As intermitências da morte, do prêmio Nobel lusitano José Saramago (1922-2010).

O livro é permeado por características marcantes das escrituras do escritor português, inclusive a respeito de sua criatividade com queda para situações fictícias surreais – às vezes até angustiantes –, como vistas nas obras do genial literato tcheco Franz Kafka (1883-1924).

Como é de se esperar, com a nova situação do país descrito em As intermitências…, onde a morte suspendeu os seus serviços, as funerárias e as seguradoras enfrentam momentos penosos. O próprio governo – administrador de pensões e aposentadorias – se desespera. Medonho mesmo é o cenário descrito dos hospitais e asilos. Aqui, pacientes agonizantes não conseguem “se livrar” do sofrimento e “partir para a melhor”.
O mesmo vale para os gravemente acidentados. Em um dos trechos da narrativa, por exemplo, lê-se: “Desvairados, confusos, aflitos, dominando a custo as náuseas, os bombeiros extraíam da amálgama dos destroços míseros corpos humanos que, de acordo com a lógica matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos, mas que, apesar da gravidade dos ferimentos e dos traumatismos sofridos, se mantinham vivos e assim eram transportados aos hospitais, ao som das dilacerantes sereias das ambulâncias”.

Mas não só de delírio discorre a obra de José Saramago. O escritor conduz o leitor por reflexões sobre a morte, chegando a sugeri-la como uma personagem antropomorfizada – ou seja, com características humanas. A começar pelo fato de que a ossuda tétrica entra de greve. A morte, “(…) a partir deste acontecimento, passa a ser paulatinamente enaltecida pela população, ou pela parte saudável das pessoas do país”, comenta Diana Heck, na obra O jogo do simbólico e imaginário da morte e seus significados em As intermitências da morte, de José Saramago (Paco Editorial, 2015).

Os contratempos causados pela ausência da extenuadora leva a uma conjuntura onde esta passa a ser “(…) vista e encarada de maneira contrária do que se pregou durante séculos. A morte não é mais tabu. A população do país clama por morte, como nunca, portanto é rompida essa concepção de que a morte é única e exclusivamente ruim, arrebatadora, destruidora de famílias e causadora de tristeza, dor e sofrimento, pois a população do país pôde experimentar as consequências, em todos os sentidos, de um mundo sem morte”, completa Diana Heck.

O fato é que a morte é inevitável. O próprio Saramago foi arrebatado por ela. Aconteceu às 12h30 de 18 de junho de 2010, na ilha espanhola de Lanzarote. Foi quando, aos 87 anos, ladeado por familiares e amigos próximos, o primeiro Nobel de literatura de língua portuguesa se despediu da vida.


Por Tiago Eloy Zaidan

Tiago Eloy Zaidan é mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Pernambuco; graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Alagoas; coautor do livro “Mídia, Movimentos Sociais e Direitos Humanos (organizado por Marco Mondaini, Ed. Universitária da UFPE, 2013) e professor do curso de Comunicação Social da Faculdade Joaquim Nabuco (Recife, PE) e da Escola Superior de Marketing (Recife, PE).

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