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Quem seremos a partir de hoje?

por Roberta D’Albuquerque

Morei um ano fora do país no fim de minha adolescência, um ano transformador e intenso. Mas, de toda a experiência de estar (bem) longe de casa, o que mais me marcou talvez tenha sido uma conversa rápida que tive com meu pai, ainda no aeroporto, antes de embarcar. Ali, na confusão do grande grupo de intercambistas que se despediam de suas famílias alegremente (mesmo que com algumas lágrimas ansiosas), João, meu pai, me chamou de cantinho e disse que mudar de cidade, de país era uma chance linda de se reinventar. “Quando entrar nesse avião, deixe para trás tudo o que não gosta em você. Invente outra Roberta, ninguém conhece a original. Seja a pessoa que sempre quis ser.”

Por um lado, fiquei meio horrorizada. Nunca pensei que ele cogitasse que algo em mim não fazia sentido ou era digno de ser jogado fora (autoestima em dia). Por outro, fiquei surpresa com essa possibilidade. Dá mesmo pra criar essa pessoa nova? Essa pessoa segura, falante e livre que eu queria ser? Olha, não sei se dá. Sei que, sim, foi possível caminhar em direção a esse desejo enquanto negociava (desde sempre e para sempre) com a versão original, aquela mais pra caladinha, mais pra quieta.

A fala de meu pai me dá até hoje o conforto de saber que nada está determinado, imóvel. Que dá tempo de mudar tudo, ainda que aos trancos e barrancos, ainda que aos 45 do segundo tempo. Agora, mais de 20 anos depois, não há uma viagem, um início de ano, de semestre, mudança de trabalho, de casa ou de qualquer outra coisa que não seja para mim um gatilho para o exame de satisfação pessoal. Estou mesmo sendo a pessoa que quero ser?

Acordei minhas meninas hoje com essa pergunta: “Vocês estão vivendo o ano de 2018 como imaginaram no dia 1º de janeiro? Estão estudando o tanto que planejaram, aproveitando a delícia de ser criança, de ser saudável, de ter amigos, energia e curiosidade pelo mundo exatamente como gostariam? Pois, se não estão, subam no avião de novembro com o desejo sincero da reinvenção. Dá tempo, temos dois meses até o fim do ano (e a vida inteira) pela frente.

E você que me lê agora? Para que lado aponta o seu desejo? Quem você quer ser hoje? Bom dois últimos meses queridos, e boa viagem sempre!

 

Roberta D’Albuquerque é psicanalista e escreve sobre maternidade e infância para diversas publicações brasileiras.

 

 

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